O Maior Festival do Planeta - Bem vindo ao Carnaval do Brasil
- Marco Junior
- 15 de fev. de 2024
- 4 min de leitura
Brasil, fevereiro, quase todos os anos (alguns anos mudam) é época de festa do povo.
Não do povo total. Do povo preto, indígena, periférico. Daquele povo que passa sufoco e perrengue o ano todo, mas que em 4 dias, esquece todas as suas mazelas pra ‘colocar o bloco na rua’.
Infelizmente, o nosso país nos últimos anos tem sido tomado por uma onda ‘ultra-religiosa’ que de religiosidade não tem nada e citando um verso do rapper baiano Baco Exu do Blues ‘onde cidadãos de bem queimam terreiros, espancam mulheres e odeiam os pretos, eu sou caos, eu sou vilão’. E o carnaval 2024 veio para mostrar como são esses ‘vilões’.
Algumas escolas de São Paulo e do Rio de Janeiro, trouxeram a África/Brasil para a avenida, como por exemplo, a Viradouro, de Niterói-RJ e a Vai-Vai, da capital paulista. Mas vamos dar uma pausa em escolas de samba para falar das ruas.
Eu, esse que vos escreve, voltei pra Torrinha-SP, uma cidadezinha aqui do interior que me fez muito feliz nas oportunidades que eu tive de ir pra lá no carnaval.
No último censo, em 2015, o município contava com menos de 10.000 pessoas e isso hoje, deve ter tido um crescimento não tão grande, porém, nos 4 dias de carnaval, mais de 50.000 pessoas passam pelas ruas de Torrinha para prestigiar, além dos blocos, desfiles de bonecos gigantes e um trio-elétrico que movimenta a cidade inteira para as ruas do centro da cidade.
E Torrinha é só um exemplo do que é o verdadeiro carnaval.
Entre muita loucura, droga (óbvio que rola), bebedeira e beijo na boca de desconhecido, se encontram famílias completas que não conseguem não gostar desse que é o maior festival do planeta. Assim acontece em São Paulo, na Bahia, no Rio de Janeiro e por onde você vá por esse país a fora.
Por isso é importante dizermos o que o carnaval representa para a população, principalmente aquela mais pobre, que muitas vezes fazem do carnaval a sua apoteose (fazendo referência ao espaço no sambódromo do Rio de Janeiro), o seu estado máximo de felicidade.
No ano passado, a economia do Brasil recebeu uma injeção de 8,1 bilhões de reais nos 4 dias de folia, enquanto a expectativa para 2024 é de que esse número cresça em 10%, chegando aos 9 bilhões. E aqui, te confirmar uma coisa, grande parte dessa grana, volta pro bolso dos nossos. Ou você já viu algum playboy vender água e cerveja num isopor durante a folia?
Nesses 4 dias, muitas famílias aproveitam para fazer a sua ‘economia do ano’, de ontem tiram o seu sustento e não só isso, conseguem a perspectiva de juntar uma grana extra pra tirar um lazer.
E é exatamente esse o motivo que faz com que a burguesia, o conservadorismo e o pacto da branquitude odeiam o carnaval brasileiro, já que nesses 4 dias ‘o morro desce’, não só desce, como ensina o mundo inteiro que festa e cultura também é política e que apesar de ser a maior festa do mundo, o carnaval também é denúncia.
Vai-Vai, 1 de Janeiro de 1930, bairro do Bixiga, São Paulo.
Racionais MC’s, 1988, São Paulo.
Em 2023, o hip-hop fez 50 anos. A maior cultura do mundo, celebrou no ano passado, 50 anos de história no mundo e 40 anos no Brasil. Dentro desses 40 anos, um dos grupos que fomentou a cultura, o Racionais Mc’s foi fundamental para o final de uma guerra na capital paulista, unindo quebradas de todos os lugares com a sua música, como disse o próprio Brown (aquele) em uma entrevista para a revista Le Monde Diplomatique, da França.
“o Racionais uniu quebradas, mano. Uniu bairro que não se conversavam, que tinha guerra...”
Capítulo 4, Versículo 3 – uma clara referência bíblica, trazida pelos Racionais em 1997 e pela escola de samba Vai-Vai em 2024 (eu sei que você pensou que tava sem pé nem cabeça e tava mesmo até aqui) vão ser pra sempre na vida das pessoas, dois enredos que contaram a história verdadeira desse país.
O Vai-Vai homenageou o grupo paulista em 2024 com o enredo ‘Capítulo 4, Versículo 3 – Da Rua e Do Povo, o Hip Hop: Um Manifesto Paulistano’, num desfile que vai ficar pra história do país, trazendo referências ao dia-a-dia do povo da quebrada. Retratando a PM como demônios (rs) e trazendo imagens como a de Paulo Galo, Emicida e Tasha e Tracie para a avenida, mostrando que a homenagem não era da boca pra fora, era realmente feita com sentimento.
A escola não ganhou o título, mas foi a campeã das ruas, como disse um tweet:
“As ruas não esquecerão”. E é verdade. Parabéns, Vai-Vai.
Já no Rio de Janeiro, o título foi merecidíssimo e o Viradouro MACETOU (obrigado, Veveta) o Carnaval Carioca.
A escola trouxe para a avenida ‘Arroboboi, Dangbé’, enredo que retratava a serpente do Voudon, buscando desmarginalizar esse candomblé do povo Jeje.
Dangbé, é a serpente sagrada do Voudon que traz para o povo conhecimento e resiliência, mostrando que podemos, juntos, ser fortes e fazer a vida crescer num rumo só.
Com sete décimos de diferença pra segunda colocada, Imperatriz Leopoldinense (que fez um baita desfile e um baita enredo), a Viradouro mostrou que realmente, quem se une em torno de um propósito, conquista o que precisa ser conquistado e o carnaval desse ano, precisava ser conquistado pela Viradouro.
A escola que havia ganhado em 1997 e em 2020 e nesse ano, com um desfile impecável, teve suas únicas notas na casa dos 9, descartadas pelo regulamento, o que fez com que o Viradouro ganhasse o carnaval com 270 pontos feitos em 270 pontos possíveis.
Viradouro, parabéns e que o espírito da serpente estejam com todo vocês nessa comunidade hoje.
Por essas e outras, que esse é o carnaval do Brasil, O Maior Festival do Planeta.
O carnaval é raiz da África que nesse país, que apesar dos seus muitos pesares, resiste, luta é gigante e feito por nós, que suamos e colhemos da nossa luta. Nunca nos deram nada, então não vão mais tomar o que é nosso por direito.
O Maior Festival do Planeta, simboliza o Brasil: plural, ancestral, digno e cada dia mais perto da África.
O Brasil é do samba e da cultura africana. O Brasil é negro. E o Brasil é nosso.




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