Arte no Brasil: o lixo da sociedade.
- Marco Junior
- 22 de set. de 2025
- 6 min de leitura
Comunicamos novos tempos e não o próximo pisante – apesar de ser maneiro comemorar um Jordan novo – e é isso que o rapper Nill traz na música Adagas e Facas, de Manual Para Não Desaparecer, álbum colaborativo do Rodrigo Ogi com o ele, o Adotado – para os íntimos - e a faixa ainda conta com o rapper Matéria Prima, de BH. Mas esse texto tem pouco a ver com música, apesar de começar com esse baita verso, que é bem político.
Talvez, esse texto possa vir a ser uma crônica - que o leitor me perdoe a pretensão - se crônica é o poder de síntese do dia-a-dia, como chamar o que me ocorre desde o dia de ontem, domingo, 21 de Setembro de 2025, dia no qual eu acordei pensando em fotografar o ato contra as PECs da Anistia – que por covardia a direita mudou para dosimetria – e da Bandidagem – que visa fazer com que ratos votem se eles devem ou não ir para a ratoeira depois de comer o queijo de todos os outros – e por conta do bolso, tive que ir à praia.
Marco, você foi pra praia ao invés de ir pra manifestação? Vamo lá.
Pra ir a manifestação, eu teria que pegar o ônibus de RS6,35 e uma barca de RS4,70, na ida e na volta. Além de que a barca para na Praça XV, onde eu teria que pegar um outro ônibus, de RS5,70, até Copacabana, lugar onde ocorreu a manifestação.
Pra praia – de Icaraí no caso – o ônibus de RS6,35 e mais 20 minutinhos de caminhada. E sim, eu ainda sim, queria ter ido a manifestação, voltei da praia conversando sobre isso com a Livia, minha esposa.
Enfim, esse texto não é sobre mim e nem sobre o meu domingo de praia, esse texto, ainda nem começou, de verdade, tá ligado? Esse texto é sobre a arte brasileira, a despolitização de movimentos completamente políticos, vulgos rap e funk e como esses movimentos foram tomados pelo discurso baixo e burro do neo-liberalismo.
Vamos ao começo.
Todo mundo sabe que o hip-hop nasceu há 50 anos, na festa do DJ Kool Herc, quando ele introduziu o isolamento de certas partes da música, criando cortes e fazendo com que começassem as danças break. O que ninguém diz é porque ele começou.
O Bronx, em 1963, com a construção de uma via-expressa, que hoje corta toda a Nova Iorque, ficou isolado do restante da cidade, o que levou com que a classe-média que morava por ali, se dispersasse e fazendo assim com que os aluguéis ficassem mais baixos, trazendo para o bairro a visibilidade da comunidade negra e de imigrantes, principalmente latinos e italianos, que já eram marginalizados pelas elites econômicas do país. Vamos lembrar que os direitos civis para a comunidade negra, só chegariam no ano seguinte, em 1964.
Sendo assim, com aluguéis mais baixos e povos já marginalizados, os proprietários diminuiram drasticamente as manutenções nas moradias, fazendo com que comerciantes, também quisessem deixar o bairro, diminuindo cada vez menos a qualidade de vida das pessoas ali presentes.
Em meados de 1970, o Bronx ficou conhecido mundialmente pelos seus mais de 120.000 incêndios, os Incêndios do Bronx, danificando a comunidade e acabando com a autoestima dos que moravam ali.
Essas pessoas, cada vez mais isoladas, acabavam ficando sem emprego de qualidade, sem uma vida digna e, consequentemente, sem nenhum tipo de lazer.
A juventude do bairro, via a Disco Music como um movimento já tomado pela elite, que fazia enormes festas em clubes em que os negros não conseguiam nem chegar perto. E por isso, por socialização, autoestima, luta pelos direitos e pelo direito de se ter lazer, nasceu o hip-hop e os seus quatro elementos: DJ, MC, Bboy e BGirl e Grafitti, oriundo da pixação.
Já o funk, que surgiu como vertente do Soul americano nos anos 60, chegou ao Brasil através de festas em que o som da gringa tocava e a partir do final dos anos 80 com DJ Malrboro, por exemplo, tornou-se um movimento tipicamente brasileiro, vindo das favelas e embalando festas em que a juventude negra e favelada se reunia pra curtir o seu espaço de lazer, já que a Zona Sul carioca era – e ainda é - longe da maioria dos morros e as festas, caras e elitistas, quase não permitiam a entrada de pessoas negras.
Dito isso, essa bela introdução traz um texto que talvez não seja sutil, mas sincero e direto: artistas de rap e de funk no século XXI que abraçam candidatos como Ricardo Nunes e Pablo Marçal, em São Paulo e não se posicionaram contra os atos inóspitos cometidos pelos políticos de direita no Brasil nos últimos dias, não representam nenhum dos dois movimentos. Ponto.
As manifestações que repercutiram pelo Brasil inteiro no último domingo, foram pontos históricos do nosso país e tiveram que, em pleno 2025, tirar do conforto de suas casas na Zona Sul – sim, porque são grandes artistas e mereceram essas moradias – artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan, no Rio de Janeiro. Na Bahia, Daniela Mercury foi às ruas em Salvador. Em Brasília, capital do Brasil, esteve presente Chico César. Em Recife, ato convocado pela UEP, contou com 50 mil pessoas e com o líder mais forte da esquerda brasileira, Jones Manoel.
Mas o que as manifestações representam sobre a cultura do nosso país e o que tem a ver todos esses artistas numa manifestação política? Simples. Música e política sempre andaram lado a lado no Brasil, país onde a cultura sempre foi ridicularizada e marginalizada, pelos brasileiros – disse Nelson Rodrigues sobre o complexo de vira-lata – que são patriotas, mas odeiam tudo o que nosso país produz, achando sempre que o melhor vem de fora.
Artistas que na década de 1960 estavam nas ruas, lutando contra a ditadura, tiveram que voltar às ruas sessenta anos depois para protestar contra uma tentativa clara de retroceder o nosso país, num golpe arquitetado por um líder, que agora se acovarda e se esconde, mandando seu filho tramar contra nós, o povo brasileiro, lá nos Estados Unidos.
O ponto é, o neoliberalismo e o discurso do “quem tá duro, dorme”, invadiu a nossa cultura periférica através da ostentação e de marcas que usam influencers “de quebrada” para atingir uma classe menos favorecida, sem informação e que vê no consumo um jeito de se sentir em grupo. Esse consumo, por sua vez, faz com que bilionários da internet, queiram que as plataformas não sejam reguladas e assim, o tigrinho continua comendo solto nos storys de Virgínias e Carlinhos Maias, visando atingir um público que, por conta do desespero e da falta de perspectiva aposta a sua vida num caça-níquel de celular ou num acampamento em frente a uma fazenda de um bandido, que se usa desse desespero para ganhar seguidores e monetizar em cima deles.
Isso é reflexo da falta de políticas públicas e da falta de investimento em pesquisa dentro do país, além do discurso de “que as universidades vão doutrinar os adolescentes”, propagado pela extrema-direita, que afasta cada vez mais o trabalhador médio e as pessoas com menos informação da esquerda – aquela performática - que também existe e a qual eu também odeio, trabalhador.
Eu, como artista independente e que não recebo um centavo da Lei Rouanet, que a direita tanto ataca, mas não sabe nem explicar, venho dizer que artistas precisam se posicionar e se o seu artista não se posicionou, ele não é isento, ele fez uma escolha política, junto a equipe dele e se posicionou, só que do lado contrário a luta contra as PECs dos bandidos do congresso. O congresso é inimigo do povo e se ontem, o seu artista preferido, não disse isso em lugar nenhum, ele é mais fantoche, que artista.
Arte, no Brasil, se posiciona. Arte no Brasil tem lado. A arte no mundo serve como um escape para sistemas de governo violentos e autoritários. A arte, no seu cerne, é antifascista. Assim como eu sou. E quem não é antifascista é...
No final do dia, entre tiktoks com um refrão viral, em que as pessoas nem sequer conhecem as letras das músicas completas e o sertanejo quem é financiado pelo Agro e por prefeituras do interior do país - efeito que infelizmente vem acontecendo dentro do pagode também - a arte no Brasil se torna um lixo.
Viraliza, não fala nada e ainda por cima, despolitiza. Gerando uma geração de artistas burros, que não conhecem a realidade do próprio país e estão preocupados se o playboy que compra ingresso pra festival vai parar de seguir ele.
Djonga, BK, FBC, Marina Sena, Anitta e muitos outros artistas da nova geração, estavam lá, nas ruas, lutando por mim, por você, pela cultura do nosso país e pelo nosso país. Isso é patriotismo de verdade.
Parafraseando o Emicida, ontem, no ato da Avenida Paulista:
Não é uma luta pequena o que a gente tá enfrentando. Pra defender nosso povo, pra defender nossos direitos, pra defender nossa origem. Venceremos. Palestina LIVRE.




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